Ciência confirma o estatuto endémico de Luciola lusitanica

Há algo de especial no espetáculo que acontece todas as primaveras nas noites da Tapada Nacional de Mafra. As centenas de luzes que piscam entre as árvores não são apenas um fenómeno belo — são uma exclusividade portuguesa. E agora a ciência veio confirmar precisamente isso.

Em abril de 2026, foi publicado na revista científica Systematics and Biodiversity (Taylor & Francis) o artigo de investigação, que atribui formalmente ao pirilampo-lusitânico, Luciola lusitanica (Charpentier, 1825), o estatuto de espécie endémica de Portugal. O estudo conclui que esta espécie não tem sido confirmada em Espanha, contrariando a ideia, durante muito tempo aceite, de que se tratava da mesma espécie presente noutros pontos do sul da Europa, como França e Itália.

Um inseto que sempre foi especial — agora também é único

Os pirilampos são insetos da ordem dos Coleópteros, pertencentes à família Lampyridae. Neste grupo, na maioria das espécies, tanto as larvas como os adultos produzem luz — são, por outras palavras, organismos bioluminescentes.

Esta luz é produzida através de uma reação química cujos ingredientes principais são a luciferina que, na presença da enzima luciferase e de oxigénio, fica oxidada e emite luz. A função desta bioluminescência é essencialmente comunicativa: a luminosidade das suas lanternas permite que machos e fêmeas se localizem mutuamente e se reproduzam.

Na fase de inseto adulto, os machos Pirilampo-Lusitânico, voam em busca das fêmeas que, apesar de terem asas, não voam — ficam junto ao solo, subindo a ramos ou folhas das ervas para emitirem luz.

O ciclo de vida

O ciclo começa com a postura de cerca de 100 ovos por fêmea em meados do verão, que eclodem ao fim de três a quatro semanas. As larvas que emergem são vorazes: alimentam-se principalmente de caracóis e lesmas, presas muito maiores do que o seu tamanho, que conseguem imobilizar através da inoculação de um veneno paralisante.

No final da primavera inicia-se o processo de pupa, com duração variável entre dez dias e várias semanas. Quando o adulto emerge no início do verão, tem apenas um propósito: reproduzir-se. Em geral, os adultos não crescem, não se alimentam e vivem cerca de três semanas.

Bioindicadores de qualidade ambiental

A presença de pirilampos num território é um sinal de saúde ecológica. Os locais mais adequados para os observar são as zonas húmidas, longe de pesticidas — que matam as suas presas — e longe das luzes intensas, que perturbam a comunicação entre eles. São, por isso, importantes bioindicadores da qualidade ambiental.

Existem em todo o mundo cerca de 2000 espécies de pirilampos, estando identificadas em Portugal 10 espécies. A Luciola lusitanica é a que mais se destaca nas noites da Tapada, sobretudo entre maio e junho, quando os machos adultos voam em grande número em busca das fêmeas.

A Tapada: um santuário para esta espécie única

A Tapada Nacional de Mafra reúne as condições ideais para a prosperidade desta espécie — floresta densa, zonas húmidas, ausência de poluição luminosa intensa e uma gestão ambiental comprometida com a biodiversidade. Nas visitas noturnas que a Tapada promove anualmente entre maio e junho, a vasta maioria dos pirilampos que iluminam a floresta pertence precisamente a esta espécie — Luciola lusitanica —, tornando cada observação num encontro com uma exclusividade da natureza portuguesa. O facto de albergar uma espécie agora reconhecida como endemismo nacional acrescenta um valor patrimonial extraordinário a este território.

12/06/2026

Pirilampo-Lusitânico espécie endémica