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História

Notas históricas sobre a Tapada de Mafra

D. João V, o “Rei Magnânimo” (1689-1750), mandou construir um Palácio-Convento na Vila de Mafra em cumprimento da promessa que fez, caso a Rainha lhe desse descendência.
Este grandioso monumento, construído numa época de grande prosperidade real, em resultado da exploração de ouro e diamantes do Brasil, constitui uma obra-prima do Barroco Português.

A Real Tapada de Mafra foi criada em 1747 com o objectivo de proporcionar um adequado envolvimento ao Monumento, de constituir um espaço de recreio venatório do Rei e da sua corte e ainda de fornecer lenha e outros produtos ao Convento.

Com uma área de 1200 hectares, a Real Tapada de Mafra era rodeada por um muro de alvenaria de pedra e cal, com uma extensão de 21 Km.

A Tapada foi dividida em três partes separadas por dois muros construídos em 1828, estando actualmente a primeira, com 360 hectares, sob administração militar.

Desde o século XVIII até à Implantação da República, a Real Tapada de Mafra foi local privilegiado de lazer e de caça dos monarcas portugueses, sendo contudo, nos reinados de D. Luís (1861-1899) e de D. Carlos (1899-1908) que a Tapada conheceu o seu período áureo como parque de caça.

Com a implantação da República passou a designar-se Tapada Nacional de Mafra (TNM), sendo utilizada fundamentalmente para o exercício da caça e para actos protocolares.

A partir de 1941 foi submetida ao regime florestal total, sob tutela da Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas, passando a ser gerida numa perspectiva mais ambiental.

Em 1993 a TNM foi concessionada à Empresa Nacional de Desenvolvimento Agrícola e Cinegético (ENDAC), uma sociedade de capital exclusivamente público na dependência do Ministério da Agricultura.

A partir de 1998 é criada uma Cooperativa de Interesse Público para aproveitamento dos recursos da TNM, com o Estado a deter posição maioritária no seu capital social, em parceria com a Câmara Municipal de Mafra e entidades privadas.

CORTE E CAÇA

A Tapada como couto real de caça dos monarcas dos séculos XVIII, XIX e XX

natureza-e-historia2A importância da caça na Tapada remonta à sua fundação em 1747.
Pelo facto de ser uma área florestal de fortes potencialidades cinegéticas, a realeza encontrou neste espaço um local especialmente vocacionado para a caça e o lazer, conferindo-lhe um cunho próprio de nobreza que ainda hoje é preservado e continuado.

A prática da caça está ligada à natureza humana desde os tempos pré-históricos, evoluindo de uma actividade indispensável à sobrevivência humana, ou de complementaridade alimentar, para uma actividade de recreio e lazer associada ao gosto do contacto com a natureza e à gestão das espécies animais.

Sendo hoje uma actividade de significativa importância económica e socialmente popularizada, tempos houve em que estava reservada às classes sociais privilegiadas – aristocracia e realeza, que dispunham de extensas áreas de tapadas e coutos de caça para seu uso exclusivo.

A caça assumia então um simbolismo de poder, por um lado, e de lazer por outro, constituindo essa prática de vencer animais, fisicamente mais poderosos, uma forma de preparação física para as contendas militares.

Na época de D. João V, monarca que construiu o Convento e criou a Tapada de Mafra, deu-se um grande incremento no fabrico nacional de armas de fogo e armas de caça, que teve continuidade no reinado do seu filho D. José I.

À medida que as armas de caça se tornavam distintas das armas de guerra, tornaram-se objectos de ostentação, espelhando o poder económico e o gosto do seu possuidor.

Mafra, pela sua proximidade à Corte em Lisboa, constituiu, a par de Salvaterra de Magos, área privilegiada de caça dos reis e rainhas da Casa de Bragança, nomeadamente D. João V e D. José I, assim como D. Maria I e D. João VI, D. Pedro II, D. Fernando, D. Luís e D Carlos.

A tradição era caçar de batida ou de montaria, com o tiro feito a curtas distâncias sobre a caça em movimento.

A introdução da carabina no exercício da caça em Portugal deve-se D. Fernando Saxe Coburgo Gotha (marido da rainha D. Maria II), de origem alemã, grande caçador e coleccionador de armas e que transmitiu aos seus filhos, D. Pedro e D. Luís, o gosto pela caça e pelos valores da natureza.

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D. Luís I, que reinou 28 anos, manifestou interesse pela natureza e pela caça, muito para além do seu aspecto lúdico e transmitiu também ao seu filho, o futuro Rei D. Carlos I, as bases que vieram a resultar na sua figura de notável naturalista, oceanógrafo, caçador e
fotógrafo, registando frequentemente os eventos cinegéticos em que participava.

D. Carlos foi considerado um grande caçador, não tanto pelo número de animais abatidos ou pelo tempo dedicado à caça, mas sobretudo pela sua atitude perante o caçar, pela forma como integrava a caça noutros saberes e outros saberes na caça.

Sobressaiu também, no meio cultural da época, como notável pintor, transpondo para a tela as emoções colhidas no seu contacto com os campos e com os mares.
D. Carlos foi ainda um frequentador assíduo e entusiasta da Tapada de Mafra, gosto partilhado pela sua mulher Rainha D. Amélia, ficando na história da Tapada como a sua figura mais emblemática.